Trabalho coordenado pela doutora TATIANA SAMPAIO, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, reacende esperança para pacientes com lesão medular e avança para nova fase clínica após autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária
Uma descoberta desenvolvida ao longo de mais de duas décadas por uma pesquisadora brasileira está abrindo novos caminhos na medicina regenerativa. À frente do estudo está a doutora TATIANA COELHO DE SAMPAIO, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, responsável pela criação de uma terapia experimental capaz de reativar conexões neurais interrompidas por lesões na medula espinhal.
A técnica utiliza a POLILAMININA, proteína produzida a partir da laminina extraída da placenta humana. A substância atua como um verdadeiro “andaime biológico”, criando uma malha que favorece a reconexão entre neurônios danificados.
“Para mexer o dedão do pé, precisamos apenas de dois neurônios: um no cérebro e outro na medula espinhal. Quando ocorre a lesão, essa conexão se rompe. Nós desenvolvemos uma forma de restabelecê-la”, explica TATIANA SAMPAIO.
A proteína é abundante na fase embrionária, fase em que o sistema nervoso está em formação. Em adultos, ela praticamente desaparece — mas a equipe conseguiu recriá-la em laboratório, abrindo caminho para algo antes considerado impossível: regeneração neural após lesão completa.
RESULTADOS QUE IMPRESSIONAM
Um dos pacientes que participou da fase experimental foi BRUNO DRUMMOND DE FREITAS, que sofreu um grave acidente de carro em 2018 e ficou tetraplégico após uma lesão cervical completa.
Duas semanas após receber a aplicação da substância durante a cirurgia, Bruno conseguiu mover o dedão do pé. O pequeno gesto marcou o início de uma recuperação surpreendente.
“Eu sou prova viva de que funciona. Me recuperei quase 100%. Hoje sou independente, trabalho, dirijo carro manual e consigo cozinhar.”
Ele relata que sua evolução foi mais rápida do que a de outros pacientes que não utilizaram a polilaminina, observando avanços em semanas que, em outros casos, levam anos.
NOVA FASE CLÍNICA E EXPECTATIVA
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou o início da Fase 1 do estudo clínico em humanos. Nesta etapa, poderão participar pacientes entre 18 e 72 anos, com lesões completas e agudas da medula torácica (T2 a T10), ocorridas há menos de 72 horas e com indicação cirúrgica.
A aplicação é feita uma única vez, diretamente no local da lesão, durante a cirurgia.
O ministro da Saúde, ALEXANDRE PADILHA, destacou que será necessário aguardar as fases 2 e 3 para avaliar a eficácia em maior escala. A expectativa da pesquisadora é que, caso os resultados continuem positivos, o tratamento possa estar disponível em cerca de três anos.
CIÊNCIA BRASILEIRA PEDE MAIS INVESTIMENTO E RECONHECIMENTO
Apesar do avanço, a pesquisa também escancara uma realidade preocupante: a necessidade urgente de mais investimento público, incentivo e reconhecimento para a ciência brasileira.
Pesquisadores como TATIANA SAMPAIO dedicam décadas de trabalho a estudos complexos, muitas vezes enfrentando limitações orçamentárias severas. Não é raro que cientistas utilizem recursos próprios, dependam de editais escassos ou enfrentem longas esperas por financiamento.
Enquanto isso, é comum que profissionais da ciência recebam maior valorização no exterior do que dentro do próprio país. Em contraste, figuras das redes sociais frequentemente alcançam reconhecimento e retorno financeiro muito superiores, refletindo uma inversão preocupante de prioridades culturais.
Especialistas defendem que, sem investimento contínuo e políticas públicas sólidas de incentivo à pesquisa, descobertas como a da polilaminina podem demorar ainda mais para chegar à população.
UM MARCO PARA A MEDICINA E PARA O BRASIL
Se confirmada nas próximas fases, a técnica liderada por TATIANA SAMPAIO poderá colocar o Brasil na linha de frente mundial no tratamento de lesões medulares.
Mais do que um avanço científico, a pesquisa representa esperança concreta para milhares de pessoas que perderam movimentos e autonomia.
E reforça uma mensagem clara: valorizar a ciência não é opção — é necessidade estratégica para o futuro do país.
No Comment! Be the first one.